Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Da Lagoa Rodrigo de Freitas ao Pará



Sábado – 14 de fevereiro de 2009.
O dia começou chuvoso como tantos outros na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Aqui, no verão, dias carregados se tornam inevitáveis e chuvas torrenciais se tornam bastante desagradáveis. Mas isso não me intimida nem um pouco. Gosto mesmo de dar pinta, andando de bike na Lagoa, sujar um pouco roupa de lama, me sentir orgânica. Nesse paraíso poluído, ainda resta uma das vistas mais bonitas da cidade. Nada de contratempos, quem está na chuva é para se molhar. E definitivamente, boas gargalhadas e lindas voltas completas de bicicleta á beira do caos, deixam mulheres suburbanas e pobres mais contentes e de pernas ainda mais grossas. Super recomendável!

O grande desafio deste sábado é conseguir chegar vivo até a ciclovia que dá na Lagoa. Isso porque vivemos numa cidade de natureza protuberante, cercada de morros e praias poluídas, gente bonita, saudável, que corre todos os dias e para compensar bebe cerveja pracaralho e gosta de correr riscos, obviamente. O que de fato acontece é que vivemos numa cidade esmiuçada de mesquinharia e falta de senso. Nada de ajudar o pedestre e o ciclista temos que brigar por cada pedacinho da calçada e ponto. É cachorro, gente, pivete, damas da noite chegando da madrugada, afinal de contas, o carioca é boêmio por indiscrição e a Zona Sul cada dia que passa se torna à região mais disputada por todos aqueles que fingem querer ter qualidade de vida. No grau do desafio, tento atravessar a caótica Rua Voluntários da Pátria rumo a Lagoa sem me suicidar, é claro. E mais desafiante ainda é conseguir chegar até a ciclovia respirando fundo e mantendo a simpatia. Estamos num novo tempo, Shanti On. Tempo em que o homem morrerá carbonizado e que conseguir andar a pé será artigo de luxo, já que calçadas estão cada vez mais interditadas para obras de melhoria urbana.

Quem nunca viveu uma vertiginosa história de amor? Quem nunca se deparou com a sensação gélida de ver seu ser amado se escondendo em ares puros e distantes? Depois de dias enclausurada no meu cubículo metro quadrado chamado vulgarmente de quarto, consigo chegar à civilização novamente. Ainda meio bêbada dessa história, ainda meio tirando onda de poeta de bar, ainda meio sem destino, mas certa de que o melhor a fazer em tempos de conturbações amorosas, é seguir a premissa eterna. Relaxar e gozar.

Tem livros que deixam a gente por dias e noites desacordados, sem vontade de sair da cama, com as pernas fracas e com o coração em frangalhos. Achei melhor reagir a essa minha deficiência e tentar escrever algumas impressões tão mal cheirosas quanto a Lagoa de outrora. Sei o quanto somos pequenos quando estamos diante de um livro extraordinário. Nos confundimos com personagens que definitivamente não somos nós e sofremos com esse castigo. Acho que todo mundo que leu esse livro de alguma forma se confundiu com Lavínia. É inevitável como ela suspira o doce e o amargo da vida. Mistura sol e chuva. O consolo? Não tem. Temos que viver desonestamente para tentar comprar um humilde livro caro pracaralho e que mudará nossas vidas.
Volto perigosamente meio molhada, suja e suada. Ainda confusa e com as pernas bambas, mas agora mais grossas do que antes e com o gosto de sangue na boca porque sei que quando voltar ao meu mundo metro quadrado Lavínia ainda estará lá.
Texto livremente inspirado na personagem Lavínia do livro EU OUVIRIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS de Marçal Aquino.

Domingo, 4 de Janeiro de 2009

A MISSÃO


Todo ano é a mesma coisa, rola aquela dedicação básica de atualização da agenda telefônica. Retomamos a agenda velha na intenção de resgatar os soldadinhos de oito dígitos que salvam nossas terríveis e miseráveis vidas de freelances!

Páginas vão, páginas vêm e se você é uma das únicas pessoas organizadas nesse mundinho contemporâneo de meu deus, conseguirá achar todos os telefones e recolocá-los em seu devido lugar. O que não necessariamente quer dizer que em ordem de preferência...

Mas se você é daquelas pessoas que saem jogando os contatos pela agenda à fora sem o menor critério, corre o sério risco de ter que dedicar um dos seus primeiros dias do novo ano a despistar dos seus olhos os números inúteis que passaram por critérios de vida ou morte pelas suas anotações!

Claro que sem contar com os telefones úteis que se transformaram em inúteis e que como toda pessoa esperançosa que és, você dará crédito e os anotará na lista dos indevidos, pois podem vir a se tornarem úteis novamente. Vai, persistência é a parada!

E você não é burro o suficiente de jogar fora números descompromissados
que futuramente podem vir a salvar sua vida! Magina!

Afinal, todo telefone inútil pode vir a se tornar útil em fim de noites chuvosas. Vale dar aquela conferida também nos telefones anotados nos domingos e feriados, para não perder de vista as alegrias corriqueiras do ano que se findou.
dedicado a amiga e donzela Poliana Paiva.

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

Plano Sequência


















Do ônibus pro trem rumo ao subúrbio. Casas de muro baixo, algumas ainda inacabadas diante dos trilhos. Pela plataforma da estação da Penha avisto o horizonte e percebo pixações em picos sagazes.

Um vagão escuro retém vidas infladas de caos como biscoito de polvilho. Permaneci quase toda a madrugada pensando no estrago que o amor faz na gente. Desço na estação Riachuelo.

Eu sou o rei do mundo agora, grita um muleque visceral e magricelo, ao subir num cotoco de cimento que algum morador da região ousou fazer para barrar o estacionamento de carros vizinhos em sua calçada. Mal sabiam que ali começava mais um grande momento de delírio...
Estou na espreita do antídoto contra esse veneno tão furioso que é a paixão. A delícia de se estar bem e querer bem. Sou inflamada e inflamo.

Enquanto espero de volta o ônibus, um homem dança break para integrar seu corpo a rua, enquanto seu caminhão descarrega entulho. Chove aqui faz semanas, o país inteiro encontra-se alagado, sufocado. Lavínia mexeu comigo, que me desculpe as outras. Talvez porque ela consiga suprimir de mim todo o amor possível, talvez porque ela seja tão louca quanto cada um de nós. Talvez porque seja insanamente desejada. Talvez, por que Lavínia exorcizou meus fantasmas.

Corro com minhas retinas cultivando observar cada detalhe.
Já é natal e todos esperam ansiosos por um ano novo menos dolorido. Menos eu.
Qualquer um de nós pode desejar coisas profanas, mas o maior êxito é manter o mistério.
Talvez pela consumação intensa do amor em meu corpo, vou criando anticorpos contra impossibilidades, espero ápice e declínio. Ninguém vive impune a isso.

Como carne no açougue, penduro as expectativas para 2009.
Prefiro continuar meu plano sequência do que cortar a cena no ápice.

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Reza aos grafiteiros




Das mãos que pegam em latas
Sinto o gosto do verdadeiro veneno
Abrem caminhos
Desbravam vaidades
São danças para Iemanjá
Segue pedindo passagem.


Sábado, 4 de Outubro de 2008

Ar e vento



Preciso conseguir acalmar minha pulsação. Encontro-me longe de mim sem a menor pretensão de ter um destino. Só preciso me deslocar, sair do lugar. Meu corpo não me obedece quando minha cabeça está longe. Escrever para mim não é como uma arte, é como respirar. No instante que me vivifico em palavras solto de mim todas as angústias que me fez deslocar-me propositalmente para dentro do infinito. De um infinito finito, em mim. Preciso conseguir controlar minha ansiedade. Não é fácil domar pensamentos, é uma sensação de êxtase constante. Não tem como meus pensamentos duvidarem, do que está saindo por meus poros. Mãos trêmulas neste instante e uma imagem visual perfeita mesmo com os olhos fechados me fazem levantar os pés do chão. Tão imediato e apenas um contato. Apenas um contato.

Também não consigo mais montar meu mosaico, está tudo disperso e vivo. Torna-se instintivo tentar achar o realismo disso tudo que corre em mim. Só quando durmo consigo realizar-me. Tentei achar a realidade muitos dias e a encontrei seca e árida. Parece que é justamente quando me proponho a realizar-me, que meus pensamentos se desconectam de mim. Me assusta o caos completo. Sinto que minha respiração continua ofegante. Que tem um grande balão inflável dentro de mim, como os peixes que respiram pela boca, mas não tenho traquéias, só me inflamo de ar. Longe de mim.

Abomino a paixão, pois ela me consome. Não sei controlar. Levo-me em tambores pelo som que traz o vento, me desconcentro, fico impulsiva, danço, saio com roupa do lado contrário pela rua, me vejo em coisas, fumo e bebo. É uma questão de força, de domínio, de fuga como correr e tomar banho de chuva. Fico arrebatada. Penso ser a paixão a causa de minha imensidão e enclausulamento. Não temo sentir. Quando sinto, sinto forte. Escrever é poder tirar isso de mim. É poder gritar em palavras que ecoam pro universo. É um prazer ter saudade, acordar suada, de tanta intensidade.

É primavera, tem flores agora, tem cheiro de transformação. Me orgulho de sentir quando algo está entrando em mim e saber que isso vai me transformar. Me orgulho de sentir dor exacerbada, isso gera vida. O processo dói. É até onde posso me esticar sem ter que explicar em palavras coerentes como consigo respirar sem traquéias. Não consigo me esforçar para escrever, tenho que fazer isso. E o sangue agradece, se não apodrece e fica aqui, neste corpo, coagulado.

Ainda tenho coisas a dizer, para que ninguém me ouça. Para que tudo continue girando. Para que meu coração se fortaleça e deseje mais o que tiver que desejar. Se minha inspiração não vem de ninguém também não vai para ninguém, não estou inspirada em função de nada, não é para ter direção. O sentir é um ciclo, é uma bolha que infla e que desinfla. Somos como aves e peixes, podemos respirar pra dentro e voar pra fora. Somos únicos e flagelados pela paixão. Homens e Mulheres podem sentir as fortes batidas juntos ou separados, como disse, não tem direção. É circular. É maravilhoso que as coisas não dependam de mim.

Escrevo porque é intrínseco a mim.Tenho sonhos como qualquer bicho, mas se eles não acontecem, busco me libertar e ser maior. O instinto é surreal e vivo. Agora, neste instante, entro em contato com uma nova sensação que vem atrás do pensamento que faz com que a realidade não seja descrita, ela não existe agora. Ela viaja enquanto eu fico e quando eu vou é porque ela me leva. Isso que escrevo agora, não tem começo, é mesmo continuação do que já fui e do que não serei.

Estou cansada de me defender, consegui atingir o meu âmago, não preciso me esconder de nada, se alguma coisa tem que ser cruel comigo, que venha de mim. A maior sensação de alívio é quando dói e sabe-se que a dor é justa. O processo é cíclico.
E como não me entregar a esse instante? Eu me entrego à palavra que chega me levando. Toda vontade vira dádiva e me permito, porque tem coisas que vão continuar comigo, meus pensamentos duvidosos e altruístas, nem tudo vou colocar em palavras, minha existência se faz de minha experiência, mesmo que eu não seja senhora de mim.
O que faço agora é tentar misturar palavras para que o tempo se faça. O que eu digo deve ser lido rapidamente, como o que se olha e não se fixa. Nada está fixado em mim.

Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Uma fotografia e o mar de Sophia



Enquanto espero, escrevo. Por conta de uma inspiração circunstancial e envolvente.
São palavras que saem aleatórias, sem melodia, concisas. De toda lembrança que guardo em mim, tem sempre aquela que a gente não espera e reaparece.

Quando conheci Sophia, entendi a razão do meu viver.

Como um vento, Sophia passou por mim junto a algumas fotografias que guardei quando fui a Ilha de Itaparica. A crença junto a vontade e junto a distração de se ter o sol a pino nas costas, é bom se identificar com um santo, sentir sua natureza, seu brilho em seus próprios olhos.

Não há língua não falada que não seja entendida pelo olhar.

Sophia foi inacreditavelmente vestida de Iemanjá, para a cerimônia, celebrando Oxossi e a força da mata. Entre quadros perfeitos e uma profundidade inusitada, Sophia dançava com pé descalço e com alegria, numa concentração bastante feminina. Rodava, rodava, dançava. Sophia girava e voava. Tudo que mais prezo são recordações, pequenas demonstrações de bem estar.

No momento que pus os pés naquele terreiro, sabia que eu ia voltar, por conta de uma força que me tomava.

Tem uma saudade ai no meio de que não citei. Uma saudade do cheiro de todas as viagens em que alguma coisa passou por mim, que contribui para eu ser esse ser pleno e contemplativo. Gosto de fotografias, daquelas que a gente via a vida por fotogramas não digitalizados. Se eu soubesse antes que a vida não dá para ser apenas por ver, de forma cega, veria mais Sophia, rodando com o espelho na mão, linda em cada esquina.

A AUSÊNCIA É UMA CONSEQUÊNCIA INATA DE PENUMBRA.

E depois de tantas noites dançantes, eis que nasce o dia com Sophia rodando e bailando dentro de mim. A beira-mar, suando o amor, na beleza de se poder lembrar.

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008


E no meio do vento, o vácuo.
Perfeita vingança do tempo.
Sei que vai ser muito bom, pois tenho imaginação fértil.