
Sábado – 14 de fevereiro de 2009.
O dia começou chuvoso como tantos outros na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Aqui, no verão, dias carregados se tornam inevitáveis e chuvas torrenciais se tornam bastante desagradáveis. Mas isso não me intimida nem um pouco. Gosto mesmo de dar pinta, andando de bike na Lagoa, sujar um pouco roupa de lama, me sentir orgânica. Nesse paraíso poluído, ainda resta uma das vistas mais bonitas da cidade. Nada de contratempos, quem está na chuva é para se molhar. E definitivamente, boas gargalhadas e lindas voltas completas de bicicleta á beira do caos, deixam mulheres suburbanas e pobres mais contentes e de pernas ainda mais grossas. Super recomendável!
O grande desafio deste sábado é conseguir chegar vivo até a ciclovia que dá na Lagoa. Isso porque vivemos numa cidade de natureza protuberante, cercada de morros e praias poluídas, gente bonita, saudável, que corre todos os dias e para compensar bebe cerveja pracaralho e gosta de correr riscos, obviamente. O que de fato acontece é que vivemos numa cidade esmiuçada de mesquinharia e falta de senso. Nada de ajudar o pedestre e o ciclista temos que brigar por cada pedacinho da calçada e ponto. É cachorro, gente, pivete, damas da noite chegando da madrugada, afinal de contas, o carioca é boêmio por indiscrição e a Zona Sul cada dia que passa se torna à região mais disputada por todos aqueles que fingem querer ter qualidade de vida. No grau do desafio, tento atravessar a caótica Rua Voluntários da Pátria rumo a Lagoa sem me suicidar, é claro. E mais desafiante ainda é conseguir chegar até a ciclovia respirando fundo e mantendo a simpatia. Estamos num novo tempo, Shanti On. Tempo em que o homem morrerá carbonizado e que conseguir andar a pé será artigo de luxo, já que calçadas estão cada vez mais interditadas para obras de melhoria urbana.
Quem nunca viveu uma vertiginosa história de amor? Quem nunca se deparou com a sensação gélida de ver seu ser amado se escondendo em ares puros e distantes? Depois de dias enclausurada no meu cubículo metro quadrado chamado vulgarmente de quarto, consigo chegar à civilização novamente. Ainda meio bêbada dessa história, ainda meio tirando onda de poeta de bar, ainda meio sem destino, mas certa de que o melhor a fazer em tempos de conturbações amorosas, é seguir a premissa eterna. Relaxar e gozar.
Tem livros que deixam a gente por dias e noites desacordados, sem vontade de sair da cama, com as pernas fracas e com o coração em frangalhos. Achei melhor reagir a essa minha deficiência e tentar escrever algumas impressões tão mal cheirosas quanto a Lagoa de outrora. Sei o quanto somos pequenos quando estamos diante de um livro extraordinário. Nos confundimos com personagens que definitivamente não somos nós e sofremos com esse castigo. Acho que todo mundo que leu esse livro de alguma forma se confundiu com Lavínia. É inevitável como ela suspira o doce e o amargo da vida. Mistura sol e chuva. O consolo? Não tem. Temos que viver desonestamente para tentar comprar um humilde livro caro pracaralho e que mudará nossas vidas.
Volto perigosamente meio molhada, suja e suada. Ainda confusa e com as pernas bambas, mas agora mais grossas do que antes e com o gosto de sangue na boca porque sei que quando voltar ao meu mundo metro quadrado Lavínia ainda estará lá.





